segunda-feira, 24 de junho de 2019

Anoitece






Ouço o silêncio da minha alma
Num coração que chora
Lágrimas de sangue
De caminhos destroçados
Por seres indolentes.

Sal desse mar sem fim
Salgadas as lágrimas que verto
Insípido meu sonho desfeito
Salobro o beijo tardio
Nesse descampado inóspito e frio.
Sinto o bater das folhas molhadas
Parecem acariciar o meu triste rosto
O sol aparece sem me aquecer
O sal da vida desaparece
Sem que eu o possa impedir

Anoitece enfim,
A luz se apaga naquela vereda sombria
Onde caminhámos juntos
Sem nunca nos encontrarmos.

Maria Antonieta Oliveira
24-06-2019




sábado, 22 de junho de 2019

Não Abri o Leque

(imagem google)




Hoje não abri o leque
O leque da vida que percorri
Por caminhos sinuosos
Sem braços que me defendessem
Ou olhos que me protegessem
Não abri o leque
Quero tê-lo encerrado
Como se fosse um baú armazenado
Em terras longínquas
Em mares encrespados
Em ruínas perdidas no tempo
Não, não quero abrir o leque
Ele sabe meus segredos
Aqueles, que só os meus dedos sabem
Que ninguém ousou perguntar
Nem sequer imaginar.

Ai leque da minha vida
Se me pudesses livrar deste tormento
Purificar meu pensamento
E abanar o pesadelo
Mexe comigo, leque
Abana-me, refresca-me o ser
Para que possa sobreviver.

Não!
Hoje não abri o leque!

Maria Antonieta Oliveira
22-06-2019



Escrevo Para Ti





Invariavelmente, escrevo para ti

Para ti, amor
Para ti, amigo
Para ti, sol
Para ti, lua
Para ti, mar, rio, água
Flores, campo, praia
Areia, pedras, penhascos
Sonhos, ilusões, destinos
Desenganos, vivências, caminhos
Pais, filhos, netos
Para ti, que tens voz calada
E rua por morada
Para ti, que não sabes escrever.

Invariavelmente, escrevo para ti
Porque não sei escrever para mim.

Maria Antonieta Oliveira
22-06-2019


A Fonte Secou





Chora o coração de saudade
A fonte retém a água límpida
Os peixes já não nadam
Nem mares nem rios
Nem sol nem lua
Tudo parou no tempo
Mas, o tempo não pára
Voa com o vento
No limite da inocência
E parte e leva
E volta mas não trás
E o coração chora
E a saudade atormenta
E a fonte secou.

Maria Antonieta Oliveira
22-06-2019


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Paulo Sanches VS Fernando Pessoa






E porque Pessoa merece Pessoa
Tu, estás aqui, tocando e cantando, Pessoa
E porque tu mereces amizade e carinho
Nós, estamos aqui, ouvindo e aplaudindo, Pessoa
Pessoas como tu e como Pessoa
São seres maiores
Que merecem ser homenageados
Um homem, um poeta, vários homens
Escreveu, imaginou, criou
Foi e é grande
Um homem, um poeta, um cantor
Que compõe e nos encanta
Que toca melodiosamente
O Pessoa

Dois homens, duas pessoas
Que merecem ser pessoa.

Maria Antonieta Oliveira
21-06-2019


segunda-feira, 17 de junho de 2019

Parabéns Para Mim





Acordei estremunhada
Confesso, que baralhada
Afinal quantos fazia?!
Olhei pela direita e via 1-7
Olhei pela esquerda via 7-1
Mas que grande confusão
Afinal quantos são?!

Virei-me para trás
A estrada percorrida
Era já muito comprida
Amei e fui amada
Perdi amores pelo caminho
Ganhei outros por destino
Vivi, ganhei, perdi
Muita pedra eu pisei
Estradas calcorreei
Desci e subi degraus
Destroços de vida, calhaus
Caminhos longos, sombrios
Dias tristes e frios
Colhi flores sepultadas
E superei minha mágoas

O sol renasceu, sorriu
E ao longe vi um navio
Que me trouxe à realidade
Afinal 71 é a minha real idade
71 anos de enganos e desenganos
71 anos de alegria e felicidade

Tudo faz parte da vida
Quando a vida é vivida!

Maria Antonieta Oliveira
17-06-2019







sábado, 1 de junho de 2019

O Poeta Não Dorme





O poeta não dorme
O poeta escreve os silêncios da alma
Os socalcos do caminho
As dores paridas de vidas sofridas

O poeta

O poeta escreve em linhas inexistentes
Em imagens perturbadas
Em sonhos desfeitos
Em selvas percorridas

O poeta

O poeta deixa palavras
Nas palavras deixa sentires de outros
Deixa mentiras sofridas
Para esconder outras vidas

O poeta

O poeta não dorme
O poeta não morre
Porque a sua poesia é eterna.

Maria Antonieta Oliveira
01-06-2019

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Partiste, Mãe





Também era sexta-feira
O sol esquentava, tal como hoje
E de repente, meu coração esfriou
O telefone tocou e tudo se desmoronou
O que já sabemos mas, não queremos
Com a frieza profissional
Foi dito:
- a sua mãe faleceu pela madrugada
Não! E agora?!
O nervoso apodera-se
As lágrimas não caem
Ficam retiradas no coração ferido
O pensamento voa sem destino
Sem saber qual o caminho
Como dizer? O que fazer?

Segundos que pareceram horas
E a mente volta à dor que sente.

Partiste, mãe!
Sim, partiste, há muitos anos.
Dezassete anos sem ti
É uma vida.
Um dia destes irei ter contigo
Ainda vamos ser felizes.

Maria Antonieta Oliveira
31-05-2019

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Revivi (Renasci)




Transferi para ti
Os pesadelos da noite
Pensava sobreviver
Pensava adormecer
E acordar num outro dia

Perdi os sonhos
Perdi a vida
Adormecida na noite
Em que o sol se escondeu
Por detrás da tua imagem
Sem sombra
Sem lua, sem luz
Olvidei o passado
Sentei-me a teu lado
E acordada renasci.

Transferi para ti
Os pesadelos da noite
E, revivi!

Maria Antonieta Oliveira
30-05-2019

Amor Sempre

(Castelo de S. Jorge)





Não sei quem sou
Quem fui
Quem serei
Só sei que:
Te amo
Te amei
E sempre
Te amarei.

Maria Antonieta Oliveira
30-05-2019

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Fugi Com Medo





Fugi com medo
Fui cobarde, sim, fui cobarde
Ao deixar-te sozinha no leito final
O teu olhar que jamais esqueci
Pedia ajuda, e eu, fugi
Tubos e mais tubos circundavam o teu corpo
Quase inerte
Apenas os teus olhos me seguiam
E pediam, pediam que ficasse
E eu, fugi
Qual cobarde, sem amor
Mas eu amava-te
Eu amo-te, minha mãe.
Perdoa-me
Fugi com medo
Medo de te perder
Medo por ver o teu fim.

Fugi, mãe!
Fugi com medo!

Maria Antonieta Oliveira
29-05-2019
(Há 17 anos – dia 30 de Maio de 2002)

Assustaste-me, Mãe





Assustaste-me, mãe!
Quando cheguei e a tua cama estava vazia
Tudo pensei, tudo de mau pensei
Não te vi, não estavas lá
A enfermeira, pouco simpática, disse:
- está lá, está sentada
E estavas, sentada no cadeirão,
Sorri!
Estavas com um ar melhor, sorriste
Falámos um pouco e senti-te bem melhor
Que bom!
Afinal o meu susto foi sem motivo.
Que ilusão, mãe.
As tais melhoras supostas, enganaram-nos.
Mas, esta quarta-feira, estavas bem
Aparentemente, estavas bem.
Saí confiante.
Assustaste-me, mãe!

Maria Antonieta Oliveira
29-05-2019
(Há 17 anos)

sábado, 18 de maio de 2019

Quando Voltar a Nascer





Quando eu voltar a nascer
Quero poder escolher
O dia
A hora
E essencialmente
O local
Mas quero mais
Muito mais
Quero escolher ficar
No local onde nascer
Quero lá crescer
Quero lá viver
Quero:
Dançar
Namorar
Ir com as moças passear
Ouvir o cante
Na voz dos cantadores
Quero ver:
As papoilas a nascer
Os campos a florir
E os montes a verdejar
Quero
Quando eu voltar a nascer
Quero poder escolher
E de novo
Na Vidigueira ser.

Maria Antonieta Oliveira
18-05-2019

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Aniversário





Não sopro mais as velas do teu dia
Não tenho mais fôlego, nem vontade
O dia acabou sem ti
A vida levou-te de mim
As velas desfizeram-se no calor do estio
Tudo à minha volta ruiu

No teu ultimo olhar, vi o fim de nós duas
Quem me dera poder parar o tempo
Voltar aquele dia quente que esfriou
No gelo em que teu corpo ficou
Abraçar-te, beijar-te e dizer-te
O quanto te amo
O quanto és e foste importante para mim
Dizer-te baixinho:
- Mãe, não partas de mim.

Partiste!

Não sopro mais as velas do teu dia.

Maria Antonieta Oliveira
06-05-2019

Jamais Me Esquecerei






Não me esqueci de ti
Não!
Jamais me esquecerei de ti!

Não fui a filha que desejaste
Talvez, também não tenhas sido a mãe que desejei
Mas fomos mãe e filha
Amámo-nos com muito amor.
Respeitámo-nos, ou talvez não.
Ajudámo-nos, sim, sempre.
Estivemos presentes, sim, sempre.

E
Amámo-nos, sim, sempre
Até hoje, até sempre
Amar-te-ei, sim, sempre!

Maria Antonieta Oliveira
06-05-2019




terça-feira, 23 de abril de 2019

És Tu





Se o olfacto não me trai
És tu
Se o palato não me trai
És tu
Se o tacto não me trai
És tu
Se o olhar não me trai
És tu

É o teu cheiro
É o teu sabor
É o teu toque
És tu
Sim, és tu!

És tu que me abraças e beijas
E nesse abraço e beijo
Sinto o teu cheiro
Sinto o teu gosto
Sinto o teu toque
Sinto-te em mim.

Maria Antonieta Oliveira
23-04-2019

Verdade VS Saudade





Fui em busca da verdade
Encontrei a saudade
Esticada ao sol
Na mão, pendia um girassol
Já sem vida
Qual alma perdida
A tristeza no olhar
Fazia-me lembrar
Aquele outro dia
Em que a felicidade existia
Eu e tu
Sentados no jardim
Sem sentir que tudo tem um fim.

A verdade, ficou pelo caminho
A saudade, bateu de mansinho
A vida, essa, ficou no tempo
Do que me resta no pensamento.

Maria Antonieta Oliveira
23-04-2019



terça-feira, 16 de abril de 2019

Amo-te Rafael





Abri o dicionário
Rebusquei palavras
Que dissessem o que sinto
Como fazem certos poetas
Tantas palavras encontrei
Li-as e decifrei-as
Uma a uma
Mas nenhuma dizia
O que diz o meu sentir

Olho-te em pensamento
E leio:
Carinho
Ternura
Amor
Amizade
Saudade
Orgulho
Alegria
Felicidade
Beleza

Não preciso de dicionário
Para dizer o quanto te amo
Meu querido e muito amado
Que fizeste de mim
A mulher – avó
Mais feliz do mundo.

Amo-te Rafael!

Maria Antonieta Oliveira
16-04-2019


sábado, 13 de abril de 2019

A Vida é Isto





Momentos que ficam
Saudades que doem
Sorrisos que marcam
Cheiros saudosos
Abraços sentidos
Beijos doados
Sentimentos trocados
Anos e anos passados

A vida é isto
O ontem
O hoje
E o amanhã talvez.

Maria Antonieta Oliveira
13-04-2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Sinto-te




Sinto em meu rosto
O bater das tuas asas
Voas baixinho
Qual passarinho saído do ninho.

Sinto em meu rosto
O salpico das tuas lágrimas
Choras baixinho
Qual peregrino que perdeu o caminho.

Sinto em meu rosto
O calor da tua boca
Beijas com carinho
Qual amante apaixonado e sedento.

Sinto os teus gestos
Os teus passos
Os teus sons
Os teus sorrisos
Sinto-te sempre comigo.

Maria Antonieta Oliveira
10-04-2019


domingo, 31 de março de 2019

Circulos






Circulo circular
Onde circulo
Circulando… circulando…
Nesse circulo circular
Circulamos circulando…
Circulando… circulando…

Circulei
Circulámos
Circulando
Sempre circulando
Nesse circulo circular
Que é o circulo da vida.

Maria Antonieta Oliveira
30-03-2019

quarta-feira, 27 de março de 2019

Sonho Louco




Sonhei-te num sonho já antigo
Vi o teu olhar sorrindo para mim
Os teus braços felizes corriam ao meu encontro
E os teus passos abraçavam o caminho

Sonhei-te
Sim, sonhei-te num berço encantado
Num bocejo de um sono já passado
Num areal pelo mar beijado.

Sonhei-te num sonho só meu
Em que o sol brilhava na noite
E a lua apartava os dias
Num sonho louco da minha sã loucura.

Sim, sonhei-te, amor!

Maria Antonieta Oliveira
27-03-2019

Hoje Falei Com o Mar





“O MAR ENROLA NA AREIA…. NINGUÉM SABE O QUE ELE DIZ…” – Cantiga Popular

Hoje, tentei falar com o mar
Longe da praia
Longe da areia
Nem sequer sentia o seu marulhar

Mas, tentei falar com o mar
Disse-lhe que o amava
Que precisava dele para viver
Do seu odor para respirar
Do seu silêncio para meditar

Contei-lhe dos meus sentires
Dos meus amores lembrados
Saudosos e tão presentes
Os meus segredos são dele, do mar
Sabe-os todos sem que lhos contasse.

Basta olhá-lo, senti-lo
Basta mira-lo, ouvi-lo
E a paz entra em mim
A sua energia dá-me energia
A sua força dá-me força.

Hoje, tentei falar com o mar
E ele ouviu-me, sorriu-me
E disse-me baixinho:
Segue em frente caminha
Eu, o mar, estarei sempre aqui para contigo falar.

Hoje, falei com o mar!

Maria Antonieta Oliveira
27-03-2019


segunda-feira, 11 de março de 2019

Sentir Abraços





Há abraços que se sentem
Há sentimentos que se abraçam
Há abraços sentidos
Há sentidos abraçados
Há abraços de conforto
Há conforto em abraços
Há abraços apertados
Há apertos abraçados
Há abraços sem abraço
Há desembaraços na vida

Sentir abraços com braços
Fortes e verdadeiros
É ser feliz!

Maria Antonieta Oliveira
11-03-2019

sexta-feira, 8 de março de 2019

Amanhã Também Existes





Hoje, não escrevi para ti
E porque haveria de escrever, hoje?!
Só hoje?
E amanhã, não?
Porquê?
Amanhã também existes!
Sim, amanhã também
Lavas a roupa e passas a ferro
Lavas o chão e arrumas a cozinha
Fazes a cama e limpas o pó
Mudas a fralda e vestes o bebé
Ajudas a miúda nos trabalhos da escola
Dás uns pontos nas meias
E coses o rasgão
E o almoço e o jantar
Também és tu que o fazes

E depois de amanhã
Tudo de novo farás
Então,
Porque escreverei só hoje, para ti?

Não, hoje não escrevo para ti
Porque, amanhã
Também és Mulher!

Maria Antonieta Oliveira
08-03-2019


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Sempre Presente




Espreitas por detrás do limbo
Espreitas nas manhãs de nevoeiro
Ou, nas manhãs de sol
Não te inibes
Nada te faz desistir
Por detrás de uma arvore
Na sombra de uma nuvem
No calor de uma praia
Num dia de verão
Ou, num dia de inverno.

Espreitas em tudo o que existe
Nas ondas
No arrabalde
No cimo do monte
No quarto, na cama
Por detrás da janela
No espelho onde me miro
No vitral de uma igreja
Em ti
Em mim

Espreitas e entras
Sem pudor ou autorização
Espreitas e entras
Destróis e acabas
Tiras tudo
A vida da vida
A vida da gente
A gente da vida
Desta vida
Morte maldita,

Maria Antonieta Oliveira
27-02-2019

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Avô Vitó





Senti-te ausente
Senti-me perdida
Senti-te partir
Senti-me confiante

Pedi, orei, gritei
Amei-te como pude
Cuide de ti com carinho
Sem esforço
Dei-te o mimo que precisavas
Sem mentir
Com a verdade de mim
Na minha entrega
Na esperança e confiança

E hoje,
Graças a Deus e aos nossos protectores
Estás aqui comigo
Em mais um aniversário
Hoje, são setenta e um
Amanhã, serão muitos mais
Com saúde, amor e Fé.

Sempre!

Maria Antonieta Oliveira
22-02-2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Nunca é Tarde




Nunca é tarde
Sim, nunca é tarde para amar
E eu, que quase não vos conhecia
Hoje, amo-vos
Foi como se o tempo parasse
Naquele outro tempo
Onde os sorrisos se uniram
Num momento de felicidade.

Sinto-vos um pouco meus
Como se sempre o tivessem sido
O sangue, o meu e o vosso
É como se fosse apenas um
Correndo nas veias a caminho do coração
Bombeando felicidade
Num sentir que só eu sinto
Real, verdadeiro e meu.

O destino levou-me alguém
O destino trouxe-me alguém
Vocês meus queridos sobrinhos.

Maria Antonieta Oliveira
21-02-2019
22 h 51 m

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Lisboa






Conheço os teus recantos
E encantos
Travessas e ruas estreitinhas
Ruelas, escadinhas
Becos e vielas
Conheço os teus santos e altares
Bairros e manjericos
Conheço o pisar da tua calçada
Pedras brancas e pretas
Galãs e donzelas escorreitas
Conheço o som da chinela
E o assobiar do amolador
Conheço o teu cheiro
Em dias de primavera
Conheço tudo de ti
Desde o dia em que cheguei
Que por ti me encantei.

Adoro-te Lisboa!

Maria Antonieta Oliveira
14-02-2019

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Memórias




À janela empoleirada, olho para a direita
E ligeira, escorreita de canastra à cabeça
Vem a varina subindo cantando a sua canção:
“Ó fregueses, peixinho fresquinho, quem me acaba o resto”
“Aproveite freguesa”
Chega ao largo já cansada
Pousa a canastra no chão
Tira a rodilha e com a ponta do xaile alivia o suor do rosto
Escorrido, sofrido, de uma vida de escravidão.
Num gesto já rotineiro
Olha a Igreja de Sto. António, faz o sinal da cruz
E só ela sabe a conversa que têm.
Sorri, e de novo entoa a sua canção:
“Ó fregueses, peixinho fresquinho”
“Aproveite freguesa”
Olho a canastra no chão pousada o peixe brilha,
Como brilha a calçada quando pela chuva é regada
Sardinha, carapau e outros que não sei o nome
Ao longe, entoa a mesma cantiga
São as amigas da lide que sobem a rua
Que por ironia do destino, se chama de Padaria
E no largo, no chão pousadas já são três as canastras
As varinas descansam o cansaço
Desancando na vida das outras.
Regalo o meu olhar nas saias coloridas, rodadas,
Semi- tapadas por um vistoso avental debruado.
O xaile volta a cobrir os ombros
A rodilha volta à cabeça onde a canastra se irá apoiar
E, em amena cavaqueira, as varinas unidas
Continuam subindo
Agora,
A Calçada do Correio Velho.

Saio de cima da cadeira
Amanhã será outro dia
E de novo ouvirei o cantar da varina.

Maria Antonieta Oliveira
13-02-2019